domingo, junho 04, 2006

Aula 15 - A Manipulação - campanhas negativas

Uma campanha negativa surge quando um político durante a sua candidatura se refere a defeitos do seu adversário em vez de dar relevo às suas próprias qualidades e virtudes.
As últimas eleições legislativas em Portugal foram exemplo disso, sendo que foi, também, a primeira vez que tal aconteceu no nosso país. Em causa está a campanha negativa de Pedro Santana Lopes contra José Sócrates.

“nunca se assistira em Portugal a uma campanha de ataque sistemático ao adversário, onde mais de metade do esforço de propaganda do partido do governo faz referência directa às posições da oposição em vez de veicular as suas próprias ideias.
É certo que as americanices não são novidade nas campanhas políticas portuguesas. Dos chapéus de palha da candidatura presidencial de Freitas do Amaral, em 1986, aos aventais de Paulo Portas, há muito que os políticos portugueses se inspiravam nas campanhas eleitorais americanas. A novidade é a importação das tácticas da “campanha suja”.” in, http://ruadajudiaria.com/index.php?p=7


As principais características de uma campanha negativa são:

> acusações/insinuações;

> comparações (ex: o outdoor que compara Sócrates a outras figuras importantes do PS);


> rumores, boatos e ataques pessoais (ex: o maior rumor da campanha – aquele que insinuava que Sócrates era homossexual);

> cartazes e publicidade dirigida;






> ataques directos, insultos;

> ataques indirectos (ex: os outdoors com assinatura da JSD, que pretendem anular qualquer tipo de responsabilidade delegada no partido).




Assiste-se, assim, pela primeira vez em Portugal a uma campanha negativa, baseada essencialmente em rumores (aproveitados pelo candidato da oposição) e em cartazes (onde se percebe a predisposição para elaborar a campanha negativa).
Não é possível passar uma campanha negativa sem ser pela comunicação social, pelo que assistimos pela primeira vez à utilização e exploração de um rumor por um líder político e pela comunicação social. No entanto, houve uma surpresa na opinião pública portuguesa. O boato não surtiu grandes efeitos para além daqueles que já lhe são inerentes e o PSD não venceu as eleições.

A vantagem de uma campanha negativa baseada em rumores, boatos e ataques indirectos é a dificuldade em combatê-la. Responder aos boatos não será sempre eficaz. Mas, por vezes, não responder pode ser a pior opção.

Uma campanha negativa direccionada para um político deveria (para ser eficaz) relacioná-lo com temas ligados ao crime, corrupção ou desonestidade, para poder induzir a ideia de que tal pessoa seria um perigo para a nação. Mas o que vemos, no caso português Santana vs. Sócrates, foi um ataque a uma questão privada que (apesar de algumas ideias retrógradas) não interferiria em nada com o desempenho da sua função como político e possível primeiro-ministro.

“porque “as pessoas normais” se estão nas tintas para o domínio privado dos outros desde que não pretendam impor-lhes padrões ou desde que esses modelos não prejudiquem o desempenho de funções públicas. Santana, que representa a figura do cafajeste infantil, foi perdoado nas suas extravagâncias privadas; eram um assunto pessoal. Mas quando se viu que esse comportamento também traduzia a sua incapacidade de se portar com decência como figura do Estado, então a reacção mudou.” in, http://aviz.blogspot.com/2005/02/vida-como-ela.html


“Mas, depois de tudo isto, Pedro Santana Lopes e os assessores que o aconselham a enveredar pela “campanha suja” decalcada da campanha eleitoral americana esquecem-se de um pequeno pormenor: Portugal não é os Estados Unidos e a realidade – e as tradições – políticas e sociais dos dois países tornam a transposição pura e simples de estratégias simplesmente risível. Para mais, a juntar às diferenças, George W. Bush teve Karl Rove e um partido unido em peso atrás de si. Pedro Santana Lopes não tem ninguém equiparável a Rove e o PSD, por sua causa, enfrenta uma profunda crise de identidade.” in, http://ruadajudiaria.com/index.php?p=7



“As polémicas e os incidentes que têm marcado esta campanha eleitoral parecem não agradar aos portugueses. São muitos a admitir que se sentem desmotivados e defraudados e que, também por essa razão, põem a possibilidade de nem sequer exercer o seu direito de voto. (…)É uma campanha negra que está a realçar o percurso dos dois maiores partidos, que se dispersam em vez de falarem dos assuntos que realmente interessam às pessoas.” in, http://dn.sapo.pt/2005/02/14/nacional/nao_falam_nada_que_interessa.html




Sobre a campanha negativa sobre a qual Manuel Maria Carrilho diz ser vítima:

http://www.clubedejornalistas.pt/DesktopDefault.aspx?tabid=688

http://murcon.blogspot.com/2006/05/o-gato-fedorento-o-cardeal-patriarca.html



Um clássico de uma campanha negativa:

“Black baby of John McCain slur in the George W. Bush primary campaign”

Em 2000, numa altura em que o senador John McCain vencera largamente as primárias republicanas em New Hempshire, os responsáveis pela campanha de Bush apressaram-se para a Carolina do Sul (onde as sondagens apontavam para mais uma derrota). Para além dos anúncios televisivos da campanha de Bush que atacavam directamente John McCain, começaram também a circular entre o eleitorado republicano fotocópias de uma fotografia da família McCain, onde aparecia o seu filho adoptivo vietnamita.
Nos estados sulistas o racismo está, ainda, bem presente, de forma que a imagem de McCain abraçado a um jovem de pele escura constituía uma ofensa.
Esta campanha negativa contra John McCain, a par com outras insinuações, resultou na vitória de George W. Bush nas primárias da Carolina do Sul, vitória esta que abriria caminho para a disputa da Casa Branca.

Na impossibilidade de mostrar a referida fotografia da família McCain, fica aqui uma imagem que terá contribuído certamente para essa vitória de Bush.



Para um maior desenvolvimento sobre o caso McCain vs. Bush: http://slate.com/id/1004641/